Texto: Sangue Fresco.
- Rodrigo Martuchi
- 2 de jun. de 2015
- 6 min de leitura

Imagem: Internet.
Os sentidos estavam atentos a qualquer movimento e som que interrompesse o silêncio. Em certos momentos os passos eram rápidos, em outros cautelosos. Um arrepio correu todo o seu corpo. Parou por um instante. Vozes de crianças entoavam um cântico: alegre, ininteligível. Já era tarde da noite. Ele achou que estava ficando louco, que sua sanidade estava totalmente perdida naquele breu. “Crianças não passeiam em parques durante a madrugada”, pensou. Resolveu apressar ainda mais seus passos, cada vez mais espaçados. Parou de repente, olhou para os lados e continuou.
Sua relação nunca foi das melhores com as crianças. Para falar a verdade, ele não tinha uma boa lembrança de sua juventude. Logo, odiava tudo que o fazia lembrar esta época. Ele foi uma criança triste. Sofreu preconceitos por razões desconhecidas e acabou se isolando. Agora, já adulto, ainda continua fugindo, mas encontrou uma distração que o faz sentir-se superior. É um momento que faz seu sangue correr mais rápido. Seus olhos brilham com grande satisfação. E o dia seguinte sempre parece o melhor de toda a sua vida.
“Ação”- a palavra que ele usava para definir essas ocasiões. Observar o ar ingênuo, as mãos pequenas tremendo e os olhos assustados cheios de lágrima lhe trazia um sorriso largo e cínico ao rosto. Mas a parte que ele mais gostava era quando gritavam. E a sensação era tão boa que virou seu vício. De tempos em tempos tinha que tomar uma dose para saciar-se.
Da primeira vez que cometeu uma “ação”, ainda era inexperiente. Ficou assustado de início. Não tinha certeza se conseguiria ir até o fim. Chorou junto. Mas acabou rindo no final. Uma gargalhada gostosa e medonha. E naquele momento decidiu que aquilo era o melhor para sua vida. Não sabia explicar, só sabia que era a melhor coisa que já havia feito.
Aquela era uma noite gelada no parque, o vento uivava e chegava ao seu rosto como navalhas. A previsão do tempo informara que poderia gear durante a madrugada, mas de sua testa escorria suor. Como isso era possível? Ele voltava de mais uma “ação” bem sucedida. A décima em menos de dois anos. Mas já estava acostumado. Não havia mais motivo para nervosismo.
Novamente o silêncio tomou conta da noite. Mas não de seus pensamentos, que estavam inundados de sensações das mais controversas. Estava feliz. Com medo. Eufórico. Cheio de ansiedade. Cansado. Mas disposto a conquistar o mundo na manhã seguinte.
Ele agora caminhava lentamente, algo estranho pairava no ar. Olhava para as mãos. Sentou-se em um banco e tirou da mochila uma garrafa de água – algo providencial. Jogou uma grande quantidade nas mãos, esfregando-as. O líquido transparente caía avermelhado no chão. Virou o rosto, olhando meio de lado. Lambeu o dedo. Cuspiu. Uma coisa era ver aquele líquido vermelho escorrer pelo corpo jogado ao chão. Outra completamente diferente era experimentar seu gosto. Não gostou. Aquela noite havia sido a primeira vez; e resolveu nunca mais passar a língua quando o sangue escorrer.
Recostou-se por um momento no banco. Mas não foi por muito tempo seu momento de descanso. Sentiu uma presença vinda de todos os lados. Um zunido intermitente chegava aos seus ouvidos. Sua respiração ficou engasgada. O mundo parecia girar em slow motion.
Os grunhidos ficaram mais altos. Mas ainda eram gemidos contidos. Ainda ininteligíveis para sua audição humana.
Levantou-se assustado. Ousou começar a correr, mas a ação ficou estagnada em sua mente. O pânico fez as batidas de seu coração acelerar, a respiração ficou curta e agitada. A brisa noturna ficou mais forte. As folhas levantaram-se do chão com o vento repentino e começaram a formar um rodamoinho ao redor de seu corpo. Sentiu que alguma coisa se aproximava. Olhava ao redor, dando voltas em torno de si mesmo, buscando compreender alguma razão naquilo tudo. As folhas ganharam um movimento mais rápido, apoiadas por um vento cada vez mais forte.
Em certos momentos parecia vir das folhas um silvo penetrante, seguido de um leve choramingar. Novamente identificou uma cantiga entoada. Daquelas que a gente aprende quando ainda é criança. Mas desta vez ele a identificou. Era a mesma cantiga que ele gostava de cantar nos últimos dois anos – durante seu ato vicioso.
Tentou gritar. Mas uma espessa nuvem de poeira levantou-se, penetrando por sua boca e nariz, fazendo-o tossir desesperadamente. Sua visão ficou totalmente ofuscada. Tentava sem sucesso apalpar algo. Não achou nenhum ponto de apoio. Caiu de joelhos. O vento ao seu redor não deu trégua. Fechou os olhos tentando proteger o rosto da poeira, que acertava sua face como se fossem ferroadas de abelhas.
Várias partes do seu rosto e mãos começaram a sangrar.
O cântico foi ficando cada vez mais alto. Um silvo estridente, como um grito agudo dado por várias vozes infantis, cortou o ar.
“Agora é nossa vez de brincar. Há! há! há!” – foi a frase que chegou com o grito aos seus ouvidos, estourando seus tímpanos. Um estrondo medonho, como se uma bomba tivesse estourado. O sangue escorreu. Mas agora era o seu sangue manchando o chão. Gritou um lamento de dor abafado.
Dos seus lábios era possível perceber uma oração. Um clamor a um Deus que achou nunca existir, e ali estava fazendo-o pagar pelo fardo de suas ações. Mas que fardo? Nunca esteve tão feliz! Nunca teve tanta satisfação pelo que fazia.
Ainda ajoelhado e sem enxergar um palmo à sua frente, ele apoiou as mãos no chão tentando se levantar. Estava impossível respirar com toda aquela poeira à sua volta. Cobriu a boca e nariz com o braço esquerdo. Tentando, em vão, alguma proteção.
Começou a sentir seu corpo ser cortado. Como se houvessem navalhas no meio daquele vendaval.
Sua camisa foi arrancada. Triturada.
Os cortes continuaram: braços, costas, pescoço, todo seu corpo estava sendo martirizado. O sangue espirrava a cada investida que recebia.
Não aguentaria por muito mais tempo aquele horror. Ele gritava, um grito rouco, por socorro. Pedia desculpas. Clamava por absolvição – mesmo não reconhecendo a culpa em seus atos.
Levantou-se em um pulo só, arrancando forças de toda a sua alma. Buscou impulso para transpassar aquela barreira formada ao seu redor. Não conseguiu sair do lugar. Foi alvejado por pedaços de madeira e pedras que surgiram não sabe de onde. Seu corpo ardia com o sangue e suor escorrendo.
Levou as mãos ao rosto, tentando desesperadamente buscar uma saída. Aquilo só poderia ser um pesadelo e ele queria acordar o mais breve possível. Mas a dor era tanta... Nunca havia sentido uma dor tão real. Nem mesmo quando tentou proteger sua mãe de uma investida covarde de seu pai. Ela teria morrido ali, naquele momento, com uma facada certeira. Mas quem acabou levando a facada foi ele. Bem nas costas. Por pouco não perfura um pulmão ou o coração. Seu pai fugiu quando percebeu a loucura que cometera, foi encontrado morto no dia seguinte – suicídio.
Tentava vencer a dor a todo custo. Buscou mais uma vez transpassar a nuvem de poeira. Mas foi em vão, a nuvem o acompanhava a cada passada. Logo após a nova tentativa de fuga, sentiu a presença de várias criaturas à sua volta, como se estivessem girando ao seu redor. Uma brincadeira de ciranda. Não conseguiu abrir os olhos para ver o que era, ou quem era. Mas percebeu que eram seres pequenos quando começaram a tocar nele; quando começaram a arranhar suas feridas; quando começaram a chutar suas pernas; quando puxaram seus cabelos jogando sua cabeça para trás; quando várias mãos, todas bem pequenas, agarraram seu pescoço, fazendo algo cortante talhar sua garganta de orelha a orelha.
Tudo parou. O vento. O silvo. O choramingar.
Seu corpo caiu. Inconsciente.
Não havia uma gota de sangue sequer escorrendo do seu corpo. Mas seus olhos ficaram abertos. Um olhar de espanto e dor.
Acharam-no jogado ao chão do parque logo pela manhã. Contorcido. Sua cabeça virada para trás. E em seu bolso um diário. Amarelado pelo tempo, e escrito com tinta vermelha. Um diário que continha os detalhes de todos os seus crimes. Uma prova incontestável. Mas o que mais impressionou a perícia foi encontrar antes de cada fato narrado, no canto superior direito da página, a digital de cada uma de suas vítimas. Feita com sangue. Sangue fresco.