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Texto: Cuidado com o Tarado.

  • Rodrigo Martuchi
  • 29 de abr. de 2015
  • 2 min de leitura

Imagem: Internet.

Uma voz estridente ecoou pelo silêncio fúnebre e matinal do ônibus 574-T – Metrô Carrão. As pessoas se olhavam sem entender o ocorrido. Correria não tinha como acontecer, pois qualquer movimento era rapidamente vetado por um corpo imóvel. Não havia reação a ser tomada – a não ser esperar.


Mas não demorou muito tempo até as pessoas entenderem o que estava acontecendo.

- Saí daqui, seu tarado! - foi a frase que chegou aos ouvidos de todos os passageiros. O motorista olhou para trás pelo retrovisor sem entender, aguardando alguma reação a mais. Continuou uma falação, mas como vinha lá de trás do ônibus, o motorista resolveu seguir em frente.


Eu estava amarrotado próximo da porta da frente. Olhava atentamente a cara de despreocupado do motorista. Não conseguia ver quem estava gritando, mas os insultos continuaram - agora cada vez mais altos.


“Motorista, para esse ônibus!”, gritava um. “Ninguém vai fazer nada?” – indagava outra.

Uma senhora, já de cabelos brancos, sentada no lugar de idosos levantou-se olhando para trás e grunhiu: “É um absurdo! Cadê os homens desse ônibus?” Nem preciso falar que isso acabou gerando uma comoção.


O motorista parou o ônibus. Mas não moveu um músculo e nem deu uma palavra. O máximo que fez foi olhar pelo retrovisor o movimento, e com olhos indagadores observou o cobrador. Que olhou de volta dando de ombros.


De repente ouviram-se mais gritos: “Saí daqui! Desce!”. Aí, um homem baixo, barrigudo e careca (que estereótipo!) foi chutado para fora do ônibus. Levou muitos socos e pontapés. Até um arranhão na careca. E quando ele saiu do ônibus e começou a tomar seu caminho foi possível ver sua mão trêmula fechar o zíper de sua calça.


Muitos não haviam levado a sério a indignação daquela mulher. Talvez fosse mais uma frescura feminista, como era possível ver em alguns olhares. O homem saiu com algumas escoriações. Mas continuou seu caminho.


Quanto a esse mero espectador, gostaria de ter olhado para a mulher do grito estridente. Certamente sua indignação não será o suficiente para curar seu orgulho ferido.

 
 
 
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