Texto: Divagações de um Maior abandonado.
- Rodrigo Martuchi
- 7 de abr. de 2015
- 3 min de leitura

Imagem: Internet.
Um dia, quando ainda era um projeto de ideias e ideais, um moleque mirrado, remelento, barrigudo, de nariz escorrendo, cheio de sonhos e buscando vários motivos para tudo, por que tudo era tão novo para mim, acabei depois de algum tempo me identificando com aquele ímpio personagem infantil. Eu não entendia direito tudo o que acontecia com ele, mas com o passar dos anos, me via cada vez mais parecido e comecei a compreender que tudo o que eu pensava era somente. Pensamentos.
De uma hora para outra me vi abandonado no meio de um lago sem ao menos terem me ensinado a nadar. [Bom, antes um lago do que um penhasco né?!] Consegui sair, com muito esforço. Talvez alguém por compaixão tenha me dado uma ajuda. Mas infelizmente não vi quem poderia ter sido. E creio que ele também se esqueceu.
Olhando as nuvens que passavam no céu e acompanhando as fases da lua, [tudo isso através do buraco que fiz no saco do qual eu me escondia] me sentia cada vez mais um estranho em meio a uma multidão que não sabia que eu estava ali.
Se ela não tivesse desistido de acreditar em mim, talvez tudo pudesse ter sido diferente. Mas às vezes penso: “Se eu também tivesse acreditado em mim, nada disso estaria acontecendo...”
É, creio que já me acostumei com essa vida. Estou bem assim. Desta forma não tenho como cair de novo.
Ah! Ontem vi uma estrela cadente. Algo que sempre vejo, pois durmo olhando o céu. Nunca arrisquei fazer um pedido. Não. Isso nunca. Milagres só acontecem para os que merecem. E se você me der um só motivo para eu acreditar, eu arriscaria. Mas depois de muito pensar. E como já disse: “Pensamentos, são só pensamentos.” Então...???
Nem me venha com essa de que o motivo é a vida, que tudo é belo, que tudo blá blá blá. Já ouvi muito isso. E também nunca pensei em me matar. Isso nunca. Não teria coragem.
Estou contente hoje. Deram-me um tênis novo. Quer dizer, nem tão novo. Mas pra mim, algo muito precioso.
Eu já deixei o saco de papel que cobria o meu rosto há muito tempo, ele ficou pequeno. Agora eu tenho uma grande caixa de papel. Ela é muito melhor. Me protege da chuva e do frio. Vez ou outra dá goteira. Mas ainda assim é uma linda caixa de papelão que eu posso chamar de minha. Minha caixa. Minha casa. Meu doce Lar.
Faz tempo que não me vejo em um espelho. Nossa! Minha barba esta enorme. E minhas unhas eu rôo diariamente. Assim não corro o perigo de me arranhar e elas ficam sempre limpas. Lembro de alguém me falando que higiene é muito importante.
Bom, não me incomodem mais. E não precisa ter pena de mim. Vez ou outra eu sorrio, dou grandes gargalhadas. As pessoas que passam não entendem. Me olham estranho. Com o canto dos olhos. Devem achar que eu sou louco. Rir assusta as pessoas. Essa foi a conclusão que cheguei. Mas ainda assim sorrio. Principalmente quando vejo crianças. Elas me fazem lembrar de um tempo onde tudo era diferente, um pouco melhor. Ou seria a mesma coisa? Bom, o que importa é que via tudo diferente. E essa sensação é boa.
"Quem me dera ser o Patinho feio do Conto infantil e me tornar um lindo Cisne quando crescer". Mas não tenham pena de mim. Estou bem assim. Será que fadas existem? Queria ter vivido na Terra do Nunca. Mas é uma pena ela nunca ter existido.
E não me incomodem mais.